Eu também tuíto!!

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    Tuesday, October 26, 2010

    Sobre a morte do Prof. Sandro Silva e Costa

    Fiquei bem triste ao ler o boletim da SBF hoje pela manhã e descobrir que um colega de turma, Sandro Silva e Costa faleceu. Não posso dizer que fomos amigos, mas nos conhecíamos e sempre nos víamos no corredor. Não fosse pela idade (ele tinha 41 anos) ainda houve a circunstância de sua morte ter provavelmente sido suícidio.

    Por acaso acabei achando seu blog. O que eu descobri, lendo alguns posts, foi uma pessoa atormentada há muito tempo. Comparei com meus posts; enquanto em 2007, em outro blog, eu escrevia sobre palhaçadas e andar de motocicleta ele comentava que se isolava de uma festa na ilha do Cardoso. Achei bem perturbador esse trecho:

    "...redescobri pela milionésima vez que eu, e acho que apenas eu, não tenho nada a festejar.

    Acho que meu lugar não é entre os homens: é numa linha que corre por entre as estrelas e o mar, por entre as ondas e a praia vazia, no escuro de um céu naturalmente iluminado..."

    Prefiro me lembrar nele num debate para disputa do Centro Acadêmico. Indignado com o uso de cannabis no local ele perguntou aos representantes de minha chapa:

    "E o problema dos 'tóxicos' no Centro Acadêmico?"

    Um amigo meu, hoje respeitável pesquisador em uma importante universidade europeia, falou que nós da chapa não tínhamos nenhum problema com "tóxicos", muito pelo contrário, nos dávamos muito bem com eles. Nem preciso dizer que o Sandro ficou indignado com isso, fez um protesto e, como era de se esperar, não fomos eleitos.

    Minha singela homenagem a ele: toquei hoje de manhã a música "That Joke isn't Funny Anymore" (vi em seu blog) sem o capotraste e fazendo a transposição de 2 tons.

    Sinceramente desejo que a família supere logo esse momento difícil e que o Sandro tenha encontrado a sua paz.

    Monday, March 22, 2010

    Nota

    Estou extremamente triste hoje.

    Wednesday, February 24, 2010

    Debriefing (escrito em 09-fev-2010)

    Neste momento estou voando para o Brasil. Para mim, pelo menos de uma forma mais ativa, a missão no Haiti acabou. Continuo pensando que o Haiti está para lá de ferrado e que vai demorar muito, mas muito tempo mesmo para que a casa volte a ficar em ordem por lá. Como falei meu sentimento para com os haitianos passa rapidamente da pena à raiva; não suporto ver a falta de união deles num momento desses. Por outro lado eles podem ter endurecido ao longo de sua história para serem assim tão egoístas.

    De minha parte eu embruteci. Ficar duas semanas vivendo em meio à poeira, trabalhando no sol e calor, com madrugadas frias na barraca, banhos frios etc. Fiquei mais duro na queda, menos fresco para usar um português mais corrente.

    Não fui para o lugar onde houve a maioria dos estragos; minha presença lá era simplesmente desnecessária, a não ser que eu quisesse fazer algum tipo de turismo mórbido. E sei que tinha muita ONG oba-oba que estava lá mais ou menos para isso. Eu sou da turma dos bastidores, minha especialidade é telecom. Eu dou as condições para que essas pessoas possam ir a campo com um minimo de segurança. Ou seja se eles são os atores principais eu sou o contra-regra(??).

    Mas, um dia, uma enfermeira do "MEdicins du Monde" sabendo que eu estava lá para telecom me disse o quão me trabalho era importante para eles. Nesse momento eu tive consciência do quão meu trabalho era útil e necessário ali.

    Falando do futuro próximo do Haiti eu digo que não é nada promissor. Segundo um dos oficiais de segurança da ONU, a tensão só está crescendo no Haiti devido à demora no envio de alimentos. Ainda não há energia de noite nas ruas de Porto Príncipe e os bandidos que fugiram da prisão estão fazendo a festa. Para completar a estação chuvosa está começando. Daí as doenças vão aumentar, os corpos apodrecen do debaixo dos escombros vão literalmente aflorar, as estradas danificadas vão desaparecer, mais prédios vão cair... e o mundo já começou a perder o interese na tragédia Haitiana. Dá para perceber na cantina da LogBase. As filas diminuíram muito desde o dia 23 de janeiro quando lá cheguei. A UNICEF, o WFO e mais alguns órgãos da ONU vão ficar lá por um tempo ainda.

    Mas é hora de pensar num Haiti que possa andar com suas próprias pernas e não depender da ONU.

    Friday, February 05, 2010

    Mais sobre o Haiti.

    Quanto mais eu vejo o Haiti e o povo mais eu penso: não há o que fazer. Na verdade dando comida obviamente ajudamos eles nas suas necessidades imediatas. O problema é que eles vão para sempre esperar a comida. Um amigo ítalo-canadense acompanhou uma entrevista do WFP com o pessoal de uma comunidade. E eles estavam reclamando um monte da comida, realmente irritados com a distribuição etc e tal. Mas os haitianos não se mexem para mudar a situação. Para resumir aqui acontece o seguinte: se o WFP passar toda a semana numa comunidade e entregar cestas básicas para uma semana, os haitians ficarão somente esperando o dia da entrega. Foi como um um brasileiro, comandante da marinha, me falou aqui: "Com os Haitianos você passa da pena ao ceticismo e do ceticismo à raiva deles". Realmente essa passividade irrita...

    Cada dia que passa penso que o melhor para eles seria começar de novo. Do zero. Acabem com as instituições definitivamente. Plantem árvores (para quem não sabe elas quase não existem por aqui) e comecem de novo. Queria ser mais otimista, mas com os haitianos não dá. Eu já estive em lugares bem miseráveis como Nicarágua e Bolívia, mas nada se compara à pobreza e ao conformismo daqui.

    Já escolhi a trilha sonora da partida: vou meter o Slipknot em meu tocador de mp3. A música? All Hope is gone. Como que queria estar errado, como queria que esse país ficasse bem. Mas os fatos apontam para outra realidade

    O GSM que poderia ser e que não foi

    Bom o container chegou etc e tal. Estava tudo bem, fizemos chamadas de teste até que... o ar condicionado simplesmente começou a dar pau. Para quem não é da área eu explico. Se não refrigerar o equipamento de telefonia ele simplesmente frita. Simples assim. Logo sem A/C, sem sistema. O problema é que o A/C daqui, sueco, opera em 220 V e 50Hz e conseguimos 110 V (transformáveis) e 60 Hz. Esses 10 Hz de diferença é onde o bicho está pegando. E tem uma série de problemas com aterramento que não vou aborrecer vocês. Só para o registro : A/C está off, sistema está off.

    Nossa alternativa é pegar um gerador e fazer com que ele entre no container a tensão e frequencia que precisamos.

    E, assim, estamos tomando de 1 x 0 de um simples aparelho de A/C.

    Tuesday, February 02, 2010

    Tenho até medo de falar isso mas...

    ...parece que a porcaria do container finalmente chegou. Vai levar umas 5h mais ou menos para levantar os sistema pois ele já vem pré-configurado da Suécia. Daí a ONU vai ter uma rede local, confiável com um link dedicado de um satelite em Brindisi.

    Mas não vou contar com o ovo no ânus do galináceo fêmea. Esperemos. Se rolar vou passar o dia inteiro mexendo com antenas e centrais telefônicas. De volta às origens!

    Monday, February 01, 2010

    PIRANDO POR AQUI

    Notei que minha (já pouca) paciência diminuiu bastante. Não tenho vontade de confraternizar nem fazer nada com as pessoas. Só penso no final do dia e encher a lata. Fiquei muito tempo ocioso e isso me fez mal.

    O fato de ficar 24h nesse campo é fogo. Mas sai e ver o que? Os haitianos se fodendo? Talvez de eu saisse e visse o centro da cidade me motivaria um pouco mais.

    Parece que a porcaria do container chega amanhã e aí sim vou ter algo mais que fazer. Mas, por um problema de voo, vou ter que ficar por aqui até o dia 8 de fevereiro. Claro que quero voltar ao Brasil, mas se eu ficar ocioso por aqui mais tempo, piro o coco. Sou o próprio ditado que cabeça vazia é a oficina do diabo.

    Para passar um pouco o tempo jogo xadrez no meu celular. Sinto falta da minha filha, da Kika, dos amigos, das cachorras, do Banzé, minha chácara... tanta coisa. Escrever alivia, e muito! Parece que agora que tenho um cantinho com ar condicionado e toda a infra perdeu a graça.

    É isso. Fico por aqui tentando manter meu equilibrio.

    Sunday, January 31, 2010

    Mais sobre o Haiti

    Nos últimos dias consegui dar uma saída daqui da LogBase. Fui para o Campo Charlie (a base da MSB, defesa civil sueca) e para a embaixada do Brasil com um Tenente Coronel da FAB muito gente boa.

    Provavelmente eu sairei daqui no dia 3 de fevereiro e depois da República Dominicana no dia 4 lá pelas 09 da manhã chegando ao Brasil às 22h mais ou menos.

    Qual a minha impressão sobre o Haiti? nos lugares onde passei as coisas estão relativamente funcionais. Há alguns edifícios caídos, mas vejo a maioria de pé, há comércio, tem gasolina nos postos. Ou seja tudo aparentemente normal. Nota-se que há algo errado ao ver os haitianos acampados nas ruas e alguns vagando meio que a esmo. Não fui perto da destruição total; sou um cara que ocupa os bastidores mais que a linha de frente. Meu trabalho é assegurar que os rádios estejam funcionando e que o sistema GSM da ONU (quando o maldito conteiner chegar) esteja operacional.

    Quanto aos haitianos passei da pena à raiva. Realmente eu entendo o sofrimento deles, estão passando um momento complicadíssimo, mas eles não querem fazer nada para melhorar as coisas. Totalmente sem iniciativa, tentam passar a perna um no outro, coisas assim. Vou dar uns exemplos:

    1. Fila de identificação da ONU: uma haitiana atrás de mim tenta dar um gato e furar a fila.

    2. Quando fomos montar uma torre para a MSB em Campo Charlie o motorista haitiano ficava olhando eu e os caras da WFP concretando e foi preciso uma certa insistência do William para que o cara se mexesse

    3. Nesse mesmo dia o outro "auxiliar" mandava duas pás de terra pro buraco e descansava. E eu lá com minha mão em bandagem e cara nem para me ajudar

    4. Ontem aqui no escri um haitiano sentado na cadeira, tomando cerveja e eu no meio do meu trabalho. O cara tem a coragem de me perguntar se eu queria a cadeira. Disse-lhe um "não" irônico ele não entendeu e ficou lá me vendo sentar no chão.

    Por isso acho que acordei hoje às 4h da manhã com sentimento de foda-se o Haiti e os haitianos. Mas isso passou. Sei que eles precisam de ajuda para recomeçar e quem sabe com nosso exemplo eles deixem de ser tão egoístas e preguiçosos. Quem sabe esse terremoto tenha mesmo descoberto petróleo suficiente no Haiti para poder tirar esses caras da lama.